Li o capítulo I “Quality and acess in distance education:theorethical considerations” da autoria de D. Randy Garrison, do livro de Keegan, D. (1993) (Ed). Theoretical principles of Distance Education.
Vou procurar sistematizar as ideias que o texto despertou.
Em primeiro lugar é necessário dizer que se trata de um texto datado. Ou seja de 1993. Como sabemos, o que então se passava no mundo do ensino a distância não oferece qualquer termo de comparação com a situação com que hoje nos deparamos. O texto perspectiva a existência de dois paradigmas, o dominante e o emergente. Aquele privilegia a questão da acessibilidade e da independência, enquanto que este valoriza a qualidade das interacções educativas, nomeadamente a natureza e a frequência da comunicação (professor- aluno e aluno-aluno).
A evolução que se tem operado em termos tecnológicos remete-nos para a existência de tecnologias já em grau de desenvolvimento muito avançado que permitem superar muitas dos problemas que provavelmente se colocariam há uma dúzia de anos (e alguns deles ainda não se colocavam) e que presentemente não têm razão de ser. Em qualquer dos casos é vital que no ensino a distância a acessibilidade aconteça. Presentemente ela está tão democratizada que já não existem desculpas para que se cultive a imagem do aprendente solitário. A comunicação mediatizada pelo computador, de incidência escrita e reflexiva, tornou-se um referencial. Certamente que em muitos casos se banalizou de tal modo que acabou por perder o peso e o significado. Esse é seguramente um alerta que urge fazer á navegação: o canto da sereia da tecnologia pode comprometer seriamente significativas experiências sociais de aprendizagem!
No ensino a distância o processo de comunicação entre professor e aluno é caracterizado pela mediação, sendo a ausência do tradicional relação face-a-face, geralmente apontada como uma debilidade.
Por outro lado, o debate sobre esta problemática tem-se entrincheirado em perspectivas simplistas e redutoras, centradas nas questões da acessibilidade e da qualidade, justificadas por diferentes concepções filosóficas.
A questão da qualidade do ensino a distância não é fácil de avaliar, pois encontramos critérios diversos, em função dos educadores ou das instituições. Podemos deparar com situações que incluem “pacotes” bem estruturados e desenhados, com objectivos bem predefinidos, até modelos que apostam em sistemas de comunicação com maior ou menor grau de mediação.
Em qualquer dos casos, a qualidade da aprendizagem é necessariamente afectada quer pelos materiais de apoio, quer pela manutenção de interacções entre professor e aluno. Os materiais podem ser equacionados quer em termos de fontes de apoio à aprendizagem quer como recursos que potenciam e estimulam a reflexão e a interacção. Por sua vez a aposta na integração e na construção de novos conhecimentos leva o aluno a assumir a responsabilidade de construir aprendizagens com sentido.
A relação que se estabelece entre professor e aluno no processo de aprendizagem pode ser perspectivada, no ensino a distância, em termos de independência e interacção. Os adeptos da independência viram nela, durante muito tempo, um objectivo nobre e último e, do seu ponto de vista, quanto melhor estivesse desenhado um modelo de ensino, maior seria a independência do aprendente e menor a interacção. Porém, presentemente, é entendida como uma função cognitiva, devolvendo-se ao aluno a responsabilidade da construção de aprendizagens significativas, quer colaborativa quer interactivamente.
Há autores que, em vez de independência, preferem o conceito de controlo, entendido como a oportunidade de influenciar decisões educativas, privilegiando-se a interacção entre professor-aluno-currículo. A interacção é perspectivada como um mecanismo que facilita aprendizagens críticas. O doseamento do controlo é também um elemento a ter em consideração: nem em excesso nem em defeito.
Realce-se, porém, que a comunicação é de duplo sentido, privilegiando-se na interacção as aprendizagens académicas e formais, mas colocando as interacções não académicas e informais, ao serviço daquelas e da criação de um sadio ambiente propiciador da construção de uma verdadeira comunidade de aprendizagem.
Interacção e qualidade são, de certo modo, a pedra de toque de qualquer sistema de ensino a distância, só possível com alunos responsáveis e com professores empenhados, através de um diálogo crítico e construtivo, tendo em vista a construção de experiências significativas de aprendizagem.
Como inicialmente referi o texto é muito datado e hoje não seria possível escrevê-lo nesta perspectiva tão antitética de dois paradigmas. O mundo mudou muito na última dúzia de anos. Assim como nós e os sistemas de ensino a distância. E ainda bem!
2 comentários:
Olá Gonçalo
A sua síntese das ideias do texto está interessante. Irei comentar alguns aspectos:
1. Quando refere que “Como sabemos, o que então se passava no mundo do ensino a distância não oferece qualquer termo de comparação com a situação com que hoje nos deparamos” . Certo, muito embora existam muitas situações actualmente em que se faz ensino a distância igual ao que se fazia na sua primeira geração mas com recurso às novas tecnologias. Importa ter em atenção que o que configura, caracteriza e define o ensino a distância, seja no passado seja na actualidade, não se pode reduzir ao uso de determinada tecnologia.
2. Como muito bem afirma, o texto perspectiva a existência de 2 paradigmas: o actual (à data em que o texto foi escrito) e o emergente. Mas muitas situações e instituições ainda tem como referência o paradigma que Garrison referia como actual. Na época em que o texto foi escrito a experiência que reporta não tinha paralelo em Portugal, nem no que respeita ao desenvolvimento do EaD nem no que respeita à disseminação das tecnologias, para não falar na questão da Internet. Mas este texto é actual nas questões que levanta na medida em que a actual discussão teórica no contexto do ensino a distância ainda se centra nas questões levantadas.
3. A problemática do acesso em EaD é uma das suas matrizes fundadoras. O EaD surge para possibilitar o acesso ao ensino, à educação a populações que por várias ordens de razões não tinham acesso ou tiveram que abandonar o sistema presencial. Muitas instituições de EaD (por esse mundo fora) tinham como lema serem instituições de 2º oportunidade para estas populações. Por isso, e com esta matriz surgiu a designação, no caso do ensino universitário, de “aberta”: serem abertas a públicos que tradicionalmente não teriam acesso ao ensino superior. Evidentemente que este leitmotiv pressupõe um modelo de EaD e uma determinada teoria e prática de EaD que é um modelo industrial, da economia de escala.
4. Actualmente digamos que o EaD enfrenta um dilema, que Garrison neste texto procura discutir: entre continuar a manter o objectivo do acesso, ou o da interacção e da qualidade da “transacção educacional”.
Bom trabalho,
[ ] Lina Morgado
Obrigado pelo seu comentário.
Gostei muito de ler.
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